![]() |
|
![]()
Retinta
são negros demais,
são turvos demais, e na escuridão a cegueira se ajeita como quem veste uma luva e, na embriaguez lépida da manhã uma reles gota de orvalho é uma lágrima de uma fada boa ainda assim existem as trevas, as luzes difusas em torno das sombras, o contorno perecível dos corpos, e perfume de jasmim a inundar a varanda de recordações... são negros demais, sujos demais, pobres demais, e se esforçam a compreender a vida, a sina e melanina que deus lhes deu... mas a diferença é uma sórdida mentira, é filha bastarda e rendida à razão das essências que só conhece a verdade. são todos dotados de igual humanidade, de igual sentimentos, de igual sangue e mazelas mas há ainda assim, num país de mestiços há quem queira ser príncipe e branco, ariano e puro e dotado de raça superior são uns vira-latas falsificando pedigree, imitando poodles, e fazendo de seu biotipo algo risível ao invés de palpável... por um só instante, toda aquela diferença, toda aquela vaidade, de estirpe e de estilo se esvai numa cova rasa, numa morte banal ou brutal, ou ainda, pelo inexorável esquecimento a quem devotamos às coisas e pessoas medíocres... o racismo é crime, mas ainda assim há tanta discriminação, nos olhos, nos corpos, nos gestos e sobretudo na alma... ainda bem que chico césar já avisou que alma não tem cor... alma não tem cor mas hoje eu estou retinta
GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 11/04/2009
Copyright © 2009. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
|


