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Desabrigado
Hoje me encontro em estado de desabrigo Não me falta chão Tem horas que tudo que sobra é o chão para caminhar, As pedras para contemplar As agruras dolorosas para se lastimar É tudo sobre o chão Esticado e ao comprido. Hoje estou desabrigado de mim mesmo Ao relento, jogado num canto qualquer, Num cômodo qualquer Quem perde um amigo e, sobrevive Perde qualquer e toda coisa Perde a lógica, a sanidade a realidade Só lhe sobra o chão A alma está jogada aos pés Chutada aos pontapés Repleta de hematomas E de apnéia Vivemos horas sem saber A exata hora de morrer E, quando finalmente morremos As horas fenecem com saudades A colorir o cair melancólico da tarde. A nostalgia dos desabrigados Revela-se por andar a esmo Em plenos desertos sem fim. Em ler placas inúteis. Em procurar calçadas inverossímeis Em rajar o horizonte com Olhares lilases de dor e compaixão Mas tudo é chão e é finito E logo abaixo do céu tão azul e infindo Entre o finito e o infinito Está a criatura humana A se nutrir de paradoxos E de doenças prodigiosas A demonstrar nossa fragilidade Fundamental Somos todos mortais, Somos todos finitos Vetores contidos em dna e história Vetores perdidos nas emoções e ilusões De seu próprio tempo Estou desabrigado Ao relento A captar a garoa da chuva Com saudades do sol A chorar pelas gotas da chuva Discretamente Sem deixar os outros perceber Que estou poente Que estou envelhecendo E vivendo minha finitude Com lucidez e paixão. Fecho a porta do quarto Passo trinco Respiro aliviada Por estar a sós E contrita Mas há um horizonte lá fora, Manchado de crayon No finito do quadro.
GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 02/07/2009
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