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![]() Mórbido
Olhei a frente. Olhei o verso. As sub-reptícias linhas, expressões e sons. Havia um infinito semântico Diante da mudez óbvia dos presentes. Em velório o preto é mais adequado. As velas representam luzes medievais E, o tempo era a tortura dos passantes Porque querem apenas atravessar o caminho. Na hora em que abriu o desvão na terra. O que parecia abrigo Era apenas uma cova. Com números e letras em cima. Somos numerados, etiquetados, Tarjados até mesmo na morte. Estatisticamente choramos. Em milimétricas gotas salgadas. E suamos por milimétricos poros. Tudo é tão pequeno e fugaz. Passa tudo num átimo. Mas esse velório não termina. Os comentários dos conhecidos e parentes. Teciam um burburinho confuso de falas sem sentido. Roteiros fragmentados de uma vida que acabou. Um suspiro infeliz de sono e desconforto. A chave para fechar a última morada. Como se pudesse escapar de lá. Fugir para a boêmia da Lapa ou para os sedutores braços da amante. Ou para o amor barato do meretrício. Sempre foi plural e singular. Sempre foi solitário e social. Sempre foi o outro quando quiseram que fosse apenas alguém. Mas é difícil ser alguém quando ninguém o percebia. Marcou na folhinha a tristeza combinada. A hora exata e estipulada de mil formas agendada na memória. Tinha que sofrer. Ou ao menos demonstrar algum sofrimento. Mas estava rija e mumificada diante da cena. Meus pensamentos perambulavam pelos cantos catando detalhes inúteis. E costurando-os numa narrativa plausível. A catatonia do momento Escorria pela minha razão Sem lágrimas, sem sorrisos E sem traumas. Não sentia dor. Não sentia a ausência e nem a presença. Sentia o mórbido como o ritual em torno do fim banal de toda vida. Sentir o mórbido É bebericar a morte sem veneno. GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 11/10/2013
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