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![]() Cortei carnes, cortei pêlos, cortei couro de bolsas, de sapatos e de almas. Cortei fino, profundo e geometricamente. Perfiz a multiplicação por meio da divisão invisível da matéria. Fiz a partilha em vida, do corpo e da alma. E, ainda na penumbra, a luz giletava as trevas em espasmos e flashes, revelava a natureza. A origem das fontes. O dialeto do silêncio. E, dentro do mais profundo templo. Nas orações encriptadas nos corações. A gilete orava para a ressurreição. Pelo vigor físico e dialético dos fiéis. Pela paz que não havia. Pela misericórdia que não havia. Cortei papel, metal e tecidos. Rasguei cartas de amor. Promessas vãs. Rasguei versos pecaminosos. E cortando fino, as cortinas, transfigurava a ressureição. Num esplandor silente e envergonhado. E, na brincadeira de claro-escuro, a esfinge solicitava-me a senha. Cortei tão superficalmente. Quase imperceptível O sangue brotava delicadamente como orvalhos. Em gotas sutis de cheiro nobre de animal abatido. Na caça diária de todos nós. Desatamos os nós, as tranças e liberamos as âncoras. Nada mais nos prende. Nem o navio e nem o mar. Nem o céu e nem o inferno Somente o Cântico dos cânticos entoava a trilha a ser seguida. Caminho sem pertencimento e sem volta. Em silêncio. Hirta, andando no cadafalso do destino. Assumindo o verbo e o pó do tempo Prosseguia com a inércia da paixão. GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 02/05/2018
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