![]() |
|
![]()
prateleiras
Quando só se escolhe caminhos possíveis
Há triste certeza do finito Da sombra escura da tarde Do tempo a corroer tudo Somos esculpidos pela vileza de um vento qualquer, paridos por um ventre qualquer. Qualquer história é apenas mais um enredo Na encruzilhada narrativa da vida Tudo é cenário Os protagonistas são atores perplexos Em seu roteiro possuem a glória e o infortúnio De vender-se De entregar-se de olhos vendados Uma parte de mim se fragmenta E se perde na poeira ou é digerida por ácaros Pelas frestas, arestas em ângulos. Superpostos emigram olhares abusivos Espreitam imagens recônditas Devassam privacidades fictícias Tudo está posto Como em prateleiras Com ou sem vitrines Não interessa se há a luz e simetria Interessa que a vida nos é servida Para poucos talheres. Poucas sensibilidades. Nos talheres de nossa ambição, Dilaceramos sentidos, esquadrinhamos emoções Contidas e contigenciadas Todo mundo quer dar um grito agudo e contínuo Mas não dá. No fim, a mordaça do silêncio nos supera E nos torna expectadores da nossa própria existência. Tudo está posto, Irrespondivelmente posto Posto e exposto. Numa disposição vetorial, explícita Por debaixo das palavras, Dormitando sob expressões, gestos, Olhares e prosaicas interjeições. Nosso medo está posto também Na mediocridade cotidiana Medo da morte Medo do amanhã Medo da dúvida Medo da certeza Medo do medo A escravizarmos nossa idéia de pretensa liberdade Os grilhões estão expostos reluzentes ou enferrujados, potentes ou frágeis Mas, nos amarram moralmente. Indefectivelmente É advérbio inconsciente De modo e de tempo E, nos afundam pelas âncoras jogadas em lugar incerto. Somos postos em prateleiras Olhos percorrem perímetros Mas poucos se adiantam na profundidade dos conteúdos A gente vê, mas não enxerga. A gente sente, mas não entende. A gente sabe, mas não é consciente. Corpos ensaiam a pantomima de ser vivente. Ilude-nos a dinâmica do movimento. Mas somos apenas rascunho, É a morte que nos eterniza, dá o acabamento final. A palavra final, O gesto fatal Enfim, o estilo que nos particulariza Na memória das prateleiras do mundo.
GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 15/11/2007
Copyright © 2007. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
|


