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manhã
nessa manhã
densa e pesada caiam as nuvens, sob espesso espectro de sol sol raiado, rajando o céu de dourado rasgando o azul com luzes e orvalho nessa manhã diante das pequenas flores amarelas desesperadas por uma primavera finda o sol raiava fixamente em minha memória sem sombras do esquecimento o filme interior corria pelas veias, as emoções escorriam pelos ralos dos poros. Suava silenciosamente Chorava essa manhã sentanda no meio do quintal, diante de lembranças inúteis da menina que fui, da mulher que ainda sou que ainda existe nas frestas do tempo os cães percebendo meu momento se recolheram um a um num cortejo fúnebre a uma saudade mas havia todo um dia inteiro pela frente diante de meus olhos, diante de meus punhos, perto do coração, longe de meus sonhos. nessa manhã, a brisa não refrescava apenas soprava-me ao ouvido poemas antigos de Drummond havia mais poesia naquela manhã que no mundo inteiro mais poesia naquele instante do que em toda eternidade de rimas, de estética, de frases perfeitas para ouvidos moucos corpos completos para almas ausentes nessa manhã a certeza de sobreviver mais um dia a certeza dos afetos triviais, acidentais e vividos sorvidos como numa festa bacante nua e de prontidão deitada naquele horizonte, naquela manhã preguiçosa e, que eu insisto em acordar. nessa manhã o dia resumia uma vida.
GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 02/01/2008
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