Era uma noite longa. A mais longa de toda uma vida. A senhora cancerosa nos estertores da morte. Falara com todos. Mas, ainda havia um irmão e desafeto com quem deixara de falar por mais de duas décadas. O motivo: a disputa do afeto materno. Ele era o único homem, numa prole que continha mais duas mulheres.
Ele era o Príncipe das Astúrias. O alecrim doirado do alto do Himalaia... Digno de nobreza e distinção. A senhora era sua irmã mais velha, com rivalizou em boa parte da vida... O médico preocupado falou que muito provavelmente ela não ultrapassaria aquela noite. A malsinada noite. A outra irmã procurou o irmão com ênfase... Mas, parecia que ele havia desaparecido... Nem pó nos vestígios havia... E, então, a moribunda balbuciou a pergunta sobre o indesejável irmão...E, a irmã sem coragem de dizer a verdade... afirmou que ele estava a caminho. Naquela noite chovia muito, ventos ferozes varriam as folhas de outono. E, sussurravam
pelos becos e ruas... O médico então deu mais um analgésico à moribunda... O câncer era devastador... A culpa era devastadora. E, então, prestes a dar o derradeiro suspiro...Balbuciou um perdão... e mandou dizer ao irmão que todas as brigas eram inúteis. Que todas as diferenças não importavam... E, porque somos finitos e provisórios precisamos deixar desimportâncias para trás... Faltou luz de repente, muito provavelmente por conta da tempestade. E, enfim, a moribunda deu seu último suspiro. Havia um leve sorriso em seus lábios, provavelmente, pois conseguira perdão ao Príncipe das Astúrias. O perdão como lição de vida e um fenecer aliviado... sem carregar o ódio no coração.