"O conhecimento é o mais potente dos afetos: somente ele é capaz de induzir o ser humano a modificar sua realidade." Friedrich Nietzsche (1844?1900).
 

Professora Gisele Leite

Diálogos jurídicos & poéticos

Textos


Origem dos nomes no Rio de Janeiro

 

A Praça Onze (ou Praça 11 de Junho) no Rio de Janeiro herdou seu nome da Batalha Naval do Riachuelo, ocorrida exatamente em 11 de junho de 1865, durante a Guerra do Paraguai[1], sendo um local histórico conhecido como berço do samba, um centro vibrante de culturas (judaica, africana, portuguesa) na "Pequena África", que foi drasticamente reduzido pelas obras da Avenida Presidente Vargas e do Metrô, mas cuja memória vive no samba e na cultura carioca, com marcos como o Zumbi dos Palmares e o Terreirão do Samba.

A escultura que é uma réplica de uma cabeça nigeriana, para um líder centro-africano esculpida entre os séculos XI e XII fora destinada, então, ao gosto de Ribeiro, na Praça Onze, em 9 de novembro de 1986. A existência do Sambódromo e do Monumento a Zumbi formam um outro olhar para a região, uma espécie de reverência à negritude.

Anteriormente, era o "Largo do Rocio Pequeno", um espaço cosmopolita que abrigou uma grande diversidade de imigrantes (judeus, negros, portugueses, italianos).

Tornou-se o coração da "Pequena África", um epicentro de cultura afro-brasileira, fundamental para o surgimento do samba e do Carnaval carioca, com casas de Tia Ciata e rodas de samba.

Sofreu uma redução urbana pois as obras da Avenida Presidente Vargas nos anos 1940 e a construção do metrô nos anos 1970 demoliram grande parte da praça e seus edifícios históricos, diminuindo-a fisicamente.

Não obstante ser "apagada" do mapa, sua memória persiste no nome da estação de metrô, no Terreirão do Samba e no busto de Zumbi dos Palmares, simbolizando resistência e a rica história cultural do Rio.

Até a chegada da Família Real, em 1808, a região onde a Praça Onze ficava era desabitada. Não era uma área interessante nem para o plantio, nem para moradias, pois era extremamente pantanosa. Depois da intervenção da Família Real, já em 1810, a região começou a se desenvolver. Vias foram pavimentadas e foi criado o Largo do Rocio Pequeno, que viria a ser a Praça Onze de Junho.

Contudo, em 1842, durante o Segundo Reinado, o local recebeu a instalação de um chafariz, projetado por Grandjean de Montigny, que servia para o abastecimento das casas e estabelecimentos e isso impulsionou o crescimento.

Nas décadas seguintes, a instalação de fábricas, como a de gás, de Visconde de Mauá, e a inauguração da Estrada de Ferro Dom Pedro II possibilitaram ainda mais desenvolvimento.

Ratifique-se que a Praça Onze de Junho ganhou esse nome após a Guerra do Paraguai. A data remete ao histórico confronto, do qual o Brasil saiu vencedor[2].

O fim da escravidão e a chegada de estrangeiros ao Brasil deram à Praça Onze um ar cosmopolita, agregador. A região passou a receber muitas pessoas de culturas e histórias de vida diferentes, de negros libertos com o fim da escravidão a imigrantes portugueses, italianos, ciganos e, principalmente, judeus. Aliás,  a região chegou a reunir a maior concentração judaica da história da cidade do Rio de Janeiro.

“A Praça Onze era um local de acolhimento e o epicentro de um sistema complexo de relações, que envolvia grupos de distintas religiões, condições financeiras, nacionalidades e etnias. O samba surge como produto de engajamento e entrosamento entre eles. Pessoas que se frequentavam, se ouviam, se cruzavam nas ruas, nos mercados, nas saídas e entradas das sinagogas, nas igrejas e nos terreiros”, afirmou o antropólogo Marco Antonio da Silva Mello, da UFRJ, em entrevista ao site do O Globo.

No início do século XX, quem chegou foi o samba. Das batucadas trazidas pelos negros que se encontravam na casa da famosa baiana Tia Ciata, que morava na Praça Onze, surgiu o gênero musical.

Nos anos 1930, devido às obras de modernização na região (entre elas a abertura da Avenida Presidente Vargas), a Praça foi perdendo espaço e, literalmente, ficando menor. Na década seguinte, a Praça Onze foi totalmente suprimida.

Hoje em dia, a região, embora não tenha mais a Praça, continua sendo importante para o samba. Terreirão do Samba e o Sambódromo estão localizados na área.

Foi em seu entorno que as notórias “tias” baianas abriam seus espaços para confraternizações, onde nasceu o samba, a partir da animação dos maxixes, lundus e batucadas[3], e a despeito da perseguição policial que não admitia a diversão expansiva de negros e proletários. Já nas décadas de 1930 e 1940, o carnaval faz da praça seu palco, recebendo os primeiros desfiles de escola de samba da cidade.

Mas, em 1942, em meio a uma reformulação extrema do centro promovida pelo então presidente-ditador Getúlio Vargas, em seu período mais autoritário e pelo prefeito do então Distrito Federal, Henrique Dodsworth, a praça foi praticamente extinta, reduzida a uma inóspita esplanada em função da ampliação da avenida do Mangue e da abertura da avenida Presidente Vargas.

A Praça Onze, de tantas culturas, de tantos encontros, de tantos bares e trabalhadores, que tanto tempo levou para criar identidade própria e alma carioca, foi “posta a baixo” sem qualquer consulta aos seus moradores e frequentadores.

Atualmente, do carnaval e da população negra e proletária, resta o monumento a Zumbi dos Palmares e a imponente Passarela do Samba, principal palco dos desfiles das escolas de samba. O nome, eternizado em canções clássicas da nossa música popular, sobrevive em uma estação de metrô.

O Arquivo Nacional guarda, por exemplo, extensos registros da história do samba, do carnaval, de vários logradouros da antiga Corte do Império e da ex- Capital Federal, incluindo a praça Onze de Junho.

“Adeus, minha praça Onze, adeus… já sabemos que vai desaparecer…” Estes versos compõem a canção “Praça Onze,” de autoria de Grande Otelo e Herivelto Martins.

Nesta gravação, uma das várias que estão protegidas no Arquivo Nacional, é interpretada pelo Trio de Ouro e Castro Barbosa, acompanhados de Benedicto Lacerda. Tanto a gravação quanto o rótulo (fotografado do disco) pertencem ao fundo Humberto Moraes Franceschi.

O lamento da canção expressa uma tristeza aguda diante da perda de um ponto de referência na então jovem história das escolas de samba, mas também vislumbra um futuro em que uma nova praça abrigará novamente os sambistas.

Durante o chamado “Estado Novo” de Getúlio Vargas (1937-1945), o prefeito da Capital Federal Henrique Dodsworth promoveu reformas urbanas tão radicais quanto às realizadas por Pereira Passos nos primeiros anos do século XX. O centro da cidade ganhou não apenas uma nova face, mas também uma nova extensão.

O Estado Novo (1937-1945) exerceu uma influência profunda na cidade do Rio de Janeiro, então Distrito Federal e capital do Brasil, transformando-a em uma vitrine da modernidade e do autoritarismo do regime de Getúlio Vargas. As principais mudanças foram no urbanismo, na arquitetura e na centralização do poder.

Urbanismo e Arquitetura como Propaganda: O governo utilizou o planejamento urbano e a arquitetura moderna como ferramentas de propaganda para criar uma imagem de um "país novo, forte e organizado". A ideia era alinhar a capital brasileira às metrópoles europeias modernas.

Centralização e Intervenção Estatal: O período foi marcado pela centralização extrema do poder no Executivo. No nível municipal, isso se traduziu em maior capacidade de intervenção na cidade, com a implementação de planos urbanísticos que muitas vezes ignoravam a oposição local.

Obras e Remodelação Urbana: Foram realizadas diversas obras de infraestrutura e remodelação, que incluíram:

Abertura de largas avenidas através de decretos de desapropriação e demolição de quarteirões, visando melhorar a circulação de automóveis e servir de palco para desfiles cívicos e militares;

Verticalização do centro da cidade, com a construção de edifícios modernos que alteraram significativamente a paisagem urbana;

Aterros e desmonte de morros, visando a expansão da área urbana e a melhoria das condições sanitárias, a exemplo do que já havia ocorrido com o Morro do Castelo em períodos anteriores;

Ampliação da área portuária e a urbanização de encostas e subúrbios com novas pavimentações e iluminação.

Deu-se a exclusão social pois, as reformas, embora trouxessem modernização, frequentemente resultavam na expulsão da população de baixa renda de áreas centrais para a periferia, um processo semelhante às reformas de Pereira Passos no início do século XX.

A cidade, como capital, tornou-se o centro das decisões políticas e um símbolo do nacionalismo promovido pelo Estado No

O Campo de Santanna perdeu espaço, igrejas tombadas foram derrubadas (São Pedro dos Clérigos e São Domingos), diversas ruas foram extintas ou tiveram seus trajetos alterados. Uma parcela significativa dessas alterações ocorreu em função da abertura da imponente avenida Presidente Vargas, planejada segundo padrões geométricos rigorosos que se impunham à permanência de pessoas e legados.

Oficialmente inaugurada em 1944, a via ligava, numa linha reta de 3,5 quilômetros, a praça da Candelária até Avenida do Mangue, na Cidade Nova, ampliando o acesso aos bairros da zona norte da cidade.

A boêmia e popular Praça Onze não sobreviveu às obras que, assim como o bota-abaixo de quase quarenta anos antes, tinham por objetivo eliminar os últimos resquícios da cidade velha, empurrar as habitações populares para locais mais distantes do centro, e ampliar a rede de circulação de veículos e pessoas, desafogando a cidade que crescia cada vez mais.

Dentro de um raio de cerca de quinhentos metros a partir de onde se tinha a Praça Onze, existe uma série de referências ao passado da região, todas associadas ao samba e ao negro. São estes: Terreirão do Samba(1991), terreno murado da Prefeitura do RJ, destinado aos grandes eventos relacionados ao samba, em área limítrofe à antiga Praça; o Monumento a Zumbi dos Palmares (1986) instalado entre as pistas da Avenida Presidente Vargas, onde funcionava o Colégio São Sebastião, de frente para a Praça Onze; a Escola Municipal Tia Ciata, localizada ao lado do Terreirão do Samba, em homenagem à mais famosa matriarca dos terreiros do local e, ainda, a Passarela Darcy Ribeiro (11984), o Sambódromo que é dedicada aos desfiles das escolas de samba.

A derradeira e grande alteração nos estatutos políticos do Rio de Janeiro ocorreu em 1975, quando foi estabelecido o território do atual Estado do Rio de Janeiro, resultante da fusão, sem consulta popular, dos antigos Estados da Guanabara e do Rio de Janeiro. O que estava em jogo, acima da fusão, era, de acordo com a historiadora Marieta de Moraes Ferreira era a autonomia do antigo Distrito Federal em relação ao governo federal e o consequente controle do poder logal.

A proposta partir do Poder Executivo, à época conduzido pelo General Ernesto Geisel (1907-1996) e segundo ele, "a fusão já estava em minhas cogitações antes de assumir a presidência da República. Já era assunto que se analisava e desde então foi acertado". (...). Enfim, a fusão foi decretada em 12 de julho de 1974 e sancionada pela Lei Complementar 20 e implantada a partir de primeiro de março de 1975.

 

 

Referências

GOUVÊA, Viviane. “Adeus, minha praça Onze”: como se apagou um dos bairros mais boêmios e vivos do Rio de Janeiro (artigo). In: Café História. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/praca-onze-antigo-bairro-boemio/. Publicado em: 07 de abril de 2025. ISSN: 2674-5917.

LIMA, Viviani Fernandes. Praça Onze e Congo Square: territórios abandonados e cobiçados. Dissertação de Mestrado UERJ, 2018.Disponível em: https://www.bdtd.uerj.br:8443/bitstream/1/14858/1/Dissert_Viviani%20Fernandes%20de%20Lima.pdf  Acesso em 6.12.2025.

 

 

 


[1] A Guerra do Paraguai (1864-1870) foi crucial para o Brasil, fortalecendo o Exército como força política, consolidando a hegemonia brasileira na Bacia Platina e gerando profundas mudanças sociais (como a emancipação de escravos), mas também endividando o Império e acelerando o descontentamento que levaria à Proclamação da República, ao mostrar as fraquezas da Monarquia e fortalecer os militares como força contestadora. A vitória militar na guerra trouxe poder regional e um Exército forte, mas o alto custo humano e financeiro, somado à crescente insatisfação política, minou as bases do Segundo Reinado, pavimentando o caminho para a República.

 

[2] A Guerra do Paraguai (1864-1870) terminou com a vitória da Tríplice Aliança, formada por Brasil, Argentina e Uruguai, sobre o Paraguai. O conflito culminou na destruição do exército paraguaio e na morte do ditador Francisco Solano López.  Resumo da Vitória do Brasil na Guerra do Paraguai:

Formação da Aliança: Após o Paraguai invadir territórios do Brasil e da Argentina, as três nações assinaram o Tratado da Tríplice Aliança para lutar contra as forças paraguaias. Batalhas Decisivas: As forças aliadas, que contaram com a liderança militar crucial de Luís Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias, avançaram em território paraguaio após vitórias importantes, como nas Batalhas de Tuiuti. A Marinha do Brasil também teve um papel fundamental no controle dos rios da Bacia do Prata, essenciais para a logística do conflito. Desfecho Final: A guerra arrastou-se por quase seis anos e terminou em 1º de março de 1870, na Batalha de Cerro Corá, onde Solano López foi morto em combate. Consequências para o Brasil: O Brasil saiu vitorioso militarmente, mas sofreu graves consequências econômicas, aumentando sua dívida externa e fortalecendo a instituição militar, o que mais tarde influenciaria a Proclamação da República. Consequências para o Paraguai: Para o Paraguai, a derrota foi devastadora. O país sofreu uma enorme perda populacional e teve sua economia e infraestrutura completamente arrasadas, além de perder territórios reivindicados para o Brasil e a Argentina. Acordos de Paz: A paz e as novas fronteiras entre Brasil e Paraguai foram estabelecidas formalmente em 1872, com a assinatura do Tratado de Loizaga-Cotegipe.

 

[3] Maxixes, lundus e batucadas são gêneros musicais e de dança fundamentais na formação da cultura popular brasileira, com fortes raízes africanas. Enquanto a batucada se refere a um estilo de percussão, o lundu e o maxixe são danças e ritmos distintos, porém interligados e de grande importância histórica.  Lundu:  Origem: Considerado a "dança dos negros" por historiadores como Luís da Câmara Cascudo, o lundu tem origem nas danças de roda trazidas pelos escravos bantos, principalmente de Angola e do Congo. Características: É uma dança sensual, marcada pela umbigada (gesto em que os participantes tocam ou simulam tocar o umbigo uns dos outros) e movimentos de quadris. Era acompanhada por instrumentos de percussão (batuques) e, por vezes, viola. Devido à sua conotação voluptuosa, foi frequentemente censurada pela Igreja Católica. Importância: É considerado uma das matrizes da música popular brasileira, influenciando diretamente o maxixe e o samba.  Maxixe: Origem: Dança urbana de par enlaçado, o maxixe surgiu no Rio de Janeiro no final do século XIX, em bairros populares como a Cidade Nova. É um gênero híbrido, resultado da mistura de tendências da época. Características: Conhecido como o "tango brasileiro" ou "corta-jaca", o maxixe combina elementos da polca europeia com aspectos rítmicos da habanera e a síncopa afro-brasileira. Era uma dança de salão vibrante e, inicialmente, vista como lasciva, sendo praticada em cabarés e, posteriormente, em clubes carnavalescos e teatros. Importância: Desempenhou um papel crucial na formação da cultura carioca e da MPB, sendo um precursor direto do samba.

Batucada:  Origem: O termo é uma denominação genérica para danças e músicas afro-brasileiras que utilizam instrumentos de percussão. Características: Refere-se especificamente ao ato ou efeito de batucar, ou seja, de fazer ritmo com batidas repetitivas. É o elemento rítmico percussivo que permeia o lundu e o maxixe, e é fundamental em diversos gêneros musicais brasileiros.

 

GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 06/12/2025
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