"O conhecimento é o mais potente dos afetos: somente ele é capaz de induzir o ser humano a modificar sua realidade." Friedrich Nietzsche (1844?1900).
 

Professora Gisele Leite

Diálogos jurídicos & poéticos

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Distropia contemporânea

Distropia contemporânea

 

A origem da palavra “distropia” advém do grego e significa lugar ruim, também chamado de cacotopia no sentido de ser lugar cruel ou perverso.

O termo também se refere a um Estado fictício onde se vivencia uma opressão extrema. Em geral, é caracterizada pelo totalitarismo ou autoritarismo. E, a tecnologia, as vezes se insere nesse contexto, como ferramenta de controle ou de opressão.

A literatura distópica apresenta geralmente conteúdo moral, projetando como os dilemas morais presentes se figurariam no futuro.

Por vezes, exprime crítica social e explora a estupidez coletiva e, onde a violência e desumanização são banalizadas e generalizadas.

O conceito de distopia foi introduzido por John Stuart Mill em 1868 e descrevia cenário pessimista sendo oposto à utopia de Thomas More, que acenava com uma sociedade perfeita e ideal.

A distopia refere-se à uma sociedade imaginária, caótica, opressiva e indesejável onde prevalecem a injustiça, a tirania e o sofrimento.

A distopia contemporânea apresenta sociedades sombrias, opressivas e totalitárias, refletindo a força de ansiedades atuais como o controle digital, a degradação ambiental, o forte autoritarismo estatal e a crescente desumanização. Difere das distopias clássicas que enfatizava]o corpo, o consumo e explorava a busca por aperfeiçoamento e a fragilidade da democracia.

A distopia nutre-se de nossos medos, ansiedades e medos, utilizando o futuro imaginário para criticar as tendências sociais e tecnologias atuais, transformando-se num espelho sombrio de nossa atual realidade.

Apesar de as distopias têm sido muito estudadas, principalmente a distopia crítica ue seria a terceira virada distópica ou contínuo distópico-utópico e sinalizam a necessidade de perceber essa nova fase do gênero.

 

O termo "distopia" criado em 1868 criou destaque apenas no século XXe através da discussão de valores éticos ou morais, denúncia as deturpações praticadas. dentre suas características mais marcantes estão a discussão de valores éticos ou morais e a denúncia de suas possíveis deturpações.

Para este efeito, as distopias criam uma sociedade atroz, na qual os indivíduos que ali coexistem carecem de direitos básicos e, no universo da obra ficcional, estas prerrogativas são consideradas essenciais para o que se entende por condição humana.

O ideal pessimista, marca da distopia, apareceria após as decepções com promessas sociais utópicas que não foram concretizadas. Contudo, autores como Raffaella Baccolini(2004) denotam a persistência da esperança nas distopias contemporâneas, as quais romperiam com o ideal anti-utópico das distopias tradicionais.

O sistema econômico é muito abordado em distopias tradicionais, como no caso de We de Yevgeny Zamyatin publicada em 1924 e de outras distopias da primeira metade do século XX.

Porém, como se pode observar, a problemática do capitalismo na forma atual do gênero não se faz sentir apenas socialmente, mas invade e transfigura os corpos dos indivíduos. A ética com relação à instituição corpórea não se restringe à vida ou à morte do corpo, mas transpassa a sua forma e modifica até mesmo sua essência ou a relação entre esses seres com outros diferentes de si.

Ao versar sobre a especificidade dos romances distópicos contemporâneos e, para tal, utilizar-se-á as trilogias: Feios (2005-2007) de Scott Westerfeld, Jogos Vorazes (2008-2010) de Suzanne Collins, Maze Runner (2009-2011) de James Dashner e A Quinta Onda (2013-2016) de Rick Yancey .

Já o transumanismo não se opõe ou descentraliza o humanismo, mas, ao contrário, o intensifica. No humanismo o ser humano retira a divindade do centro do universo e da representação de beleza, e no transumanismo ele destitui do divino a incumbência da evolução de sua espécie.

O homem seria então capaz de evoluir a si mesmo através da tecnologia, e a evolução estaria a cargo de seu desejo e não de uma ordem divina ou de processos naturais aleatórios.

O lado distópico da distopia contemporânea objetiva o corpo como algo que departe de uma materialidade genética. No lado utópico temos o oposto, a visão de que o ser humano é necessita deixar de considerar seu entorno como produto, precisa inserir-se em uma relação harmônica com o planeta para além da racionalidade.

A divisão ocidental entre corpo e logos proposta por René Descartes (1996 [1637]) afirma que o homem só existe quando pensa, logo exclui outros seres de um “merecimento” e os relega à inexistência e ao estatuto de coisa ou produto.

No que tange a relação entre homem e animal, Friedrich Nietzsche considera o homem como animal, mas o coloca como ser dotado de memória e esta diferença estaria potencialmente ligada à sua incapacidade de atingir a felicidade.

Temos discutido a ideia de Dunja M. Mohr (2007), que acredita na existência das utopias dentro das distopias modernas; pode-se aventar que, ao problematizarem a tecnologia em realidades horríveis, as distopias criam como efeito colateral uma ideia de utopia relacionada a essência humanista ou até mesmo naturalista.

Neste sentido, o utopismo de um estado mais anterior relembra a busca utópica pela felicidade proposta por Frederic Nietzsche (2003 [1876]), no livro Segunda consideração intempestiva.

"Considera o rebanho que passa ao teu lado pastando: ele não sabe o que é ontem e o que é hoje; ele saltita de lá para cá, come, descansa, digere, saltita de novo; e assim de manhã até a noite, dia após dia; ligado de maneira fugaz por isto, nem melancólico nem enfadado.

Ver isto desgosta duramente o homem porque ele vangloria-se da sua humanidade frente ao animal, embora olhe invejoso para a sua felicidade - pois o homem quer apenas isso, viver como animal, sem melancolia, sem dor; e o que quer entretanto em vão, porque não quer como o animal.

O homem pergunta mesmo um dia ao animal: por que não falas sobre a tua felicidade e apenas me observas?(p.07).

Nietzsche questiona a memória, colocando-a como fator que impede o ser humano de encontrar a felicidade. Neste sentido, o filósofo coloca todos os avanços tecnológicos e todas as ferramentas que nos distinguem dos animais como fatores que nos distanciam da felicidade e, portanto, da possibilidade da utopia.

A memória é atribuída ao passado e ao futuro, já que para Nietzsche ela organiza a noção de tempo. O ser humano, sendo supra histórico, traz consigo o peso do tempo; ao rever o passado ele restringe o futuro, o peso do futuro, e a reflexão acerca das próprias ações em decorrência do mesmo estariam nos afastando de um ideal.

Pode-se dizer que um desapego à esperança para com o futuro e a vivência real no presente nos aproximaria do caminho da felicidade. Entretanto, a esperança é um conceito frequentemente relacionado à humanidade. Ernest Bloch (1995), no livro The principles of hope, busca conceituar a utopia em um contexto no qual, segundo ele, é impossível não ter esperança.

Para o autor, a realidade é a expectativa da própria realização. Neste sentido, a esperança ganha uma nova conotação e torna-se, também, o nome dado ao ato de esperar.

Assim, nada existiria se não possuísse intrínseco a si uma expectativa; por exemplo, um olho pode existir materialmente, mas de fato funcionalmente não o é se não houver nele a expectativa de enxergar. Seria orgânico a mente humana ter esperança.

Contudo, o que anos de história têm mostrado à humanidade é que nem sempre essa esperança é positiva, e isso não se dá só pela nossa constituição, como visto por Bloch, mas também pelo então vivenciado. Achávamos que éramos humanos

Assim como em muitas distopias tradicionais os indivíduos geralmente não sabiam que pertenciam à uma realidade atroz, a distopia contemporânea busca majoritariamente omitir as características transumanas ou pós-humanas dos seus cidadãos, os quais creem estarem imersos em uma sociedade humana.

O grau de alienação vai desde a mentira sobre a ausência de tais características à simples adesão destas características em um sistema normativamente humano.

Observando-se os sistemas distópicos tradicionais, pode-se verificar que os regimes totalitários geralmente apregoam suas lideranças e seus sistemas sociais como salvadores, mas não como ditaduras atrozes.

Neste mesmo sentido, parece que existe determinado componente ético que não permite às sociedades distópicas contemporâneas vincularem-se às plataformas pós-humanistas ou transumanistas, preferindo divulgarem-se como humanistas, movimento que possui uma base ética mais sólida.

Neste caso, pode-se citar primeiramente a trilogia Maze Runner, pois esta característica é pungente nas obras. Os indivíduos, além de serem colocados em um labirinto sem contato algum com o mundo exterior, têm suas memórias apagadas e começam então a reinventar uma sociedade com base no entorno e em algumas memórias funcionais que foram mantidas.

Pode-se depreender a importância dos movimentos trans e pós-humano aqui explicitados e as mudanças na visão do humano decorrentes de tais correntes.

Neste contexto dinâmico, a distopia contemporânea desempenha um papel singular, pois debate as possibilidades de insucesso, os impasses éticos, políticos e sociais de uma forma distinta.

O foco das distopias contemporâneas não é a ruína futurística do humano enquanto ser social, mas a ruína do humano enquanto conceito.

Este cenário produz distopias muito singulares; porém, ainda que a ênfase no corpo seja um elemento de renovação do gênero, o ideal de pesadelo é frequentemente perpassado por distopias já há muito enraizadas.

Neste vetor, na dualidade distopias contemporâneas e tradicionais do gênero, remontam textos que não apenas se relacionam com a sociedade, mas também com o próprio imaginário de pesadelo, estabelecendo dessa forma uma meta-reflexão.

Assim como nos utilizamos do passado para montar o futuro, o “não-lugar” criado pelos temores humanos e inscrito no gênero distopia se inspira e reage a si mesmo.

Neste vetor, padrões de coerção e de massificação se tornam recorrentes, em uma longa linhagem de textos que trabalham com as possibilidades do caos.

Pode-se inferir que, da mesma maneira que a sociedade se atualiza e dialoga com sua história, esse “não-lugar” sofre o paradoxo de atualizar--se e de relembrar e estes dois processos são intrínsecos a ele, sendo também presentes neste terceiro momento do gênero.

O que existe tanto nas distopias transumanas quanto nas pós-humanas é um temor a ambos os sistemas e às ressignificações sociais que podem corroborar com a extirpação de componentes humanos.

Pode-se aventar que seja esse o motivo por trás da discussão e do foco na essência que define a humanidade frente a realidades e modelos sociais que exacerbam esta reflexão.

Na discussão do humano, questões como consciência e corpo emergem naturalmente, pois são intrínsecas ao questionamento acerca do homem enquanto ser pensante e enquanto corpo que perfomatiza e dá vazão a essa consciência.

A questão da divisão de mente e corpo já problematizada por René Descartes no “Discurso do método”, publicada originalmente em 1637, parece ainda se refletir na forma como a narrativa concebe essas ambas as estruturas.

Ademais, a problemática da separação ou aglutinação da dicotomia corpo/mente se atualiza na medida que problemáticas filosóficas, como o transumanismo e o pós-humanismo, questionam o que é ser humano.

Entretanto, esta é uma discussão que não é finda e nem passível de conformidade geral, mas vem sendo atualizada pela filosofia e também pela literatura, como é o caso da distopia contemporânea.

A relação desmedia entre corpo e mente é denunciada pelas distopias atuais, na medida em que acreditam que a mente se tornou tão central que tem por objetivo dar nova forma ao corpo que a ela parece ineficiente.

 

Referências

 

PEREIRA, Anderson Martins. Do Contemporâneo surge uma nova distopia: uma análise das principais características do gênero com base em quatro trilogias. Revista de Estudos de Cultura. São Cristóvão (SE) v.2. n.171. Jul.Dez, 2021. p. 39-50.

 

GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 05/05/2026
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