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![]() O discurso narrativo de Machado de AssisO discurso narrativo de Machado de Assis
Há uma crônica que foi publicada pelo Bruxo do Cosme Velho em 11 de junho de 1893, o narrador anuncia seu costume de "passar pelos olhos os jornais dos sete dias", seria um modo seu de refrescar a memória, e de achar alguma ideia que lhe falha, pois, elas estão em qualquer coisa, toda a questão resume-se em descobri-las. Machado ao se deparar com uma semana recheada de lances, debates, cóleras, acontecimentos, boatos e até notícias, chamou-lhe a atenção um simples anúncio: “Casacas e coletes para todos os corpos, alugam-se na rua... "Isto só, e não foi preciso mais para esquecer por instantes o resto do mundo” Os registros do cotidiano de uma semana “cheia de notícias e boatos”, todos feitos pelo narrador, constituem as matérias das crônicas publicadas por Machado de Assis no século XIX. Reconheçamos a funcionalidade do boato reconhecido em ser procedimento que organiza as crônicas machadianas e mimetiza como os boatos surgem... O boato é uma notícia de segunda de um discurso primeiro, e sua circularidade vem da opinião corrente, lugar onde se produz os consenso, os formadores de valores sociais, da doxa que se opõe ao logos. Contra as opiniões sustentadas pelos boatos, o logos é aqui entendido não “à maneira hegeliana, como racionalidade, mas como discursividade”, visto que “o racional não é senão a efetivação do discursivo”. . Entender o “logos em toda a continuidade, ida e volta, de seu sentido, do discursivo ao racional e deste ao discursivo”, significa pensar que se o discursivo pode se tornar por si mesmo racional, é também “o racional, na medida em que domina o homem e consegue fazer concordar consigo a natureza e os hábitos, que se faz discursivo, “persuasivo e, portanto, retórico”. Nas narrativas machadianas, então, o boato, em oposição a esse logos, é a fonte constitutiva das opiniões consideradas verdadeiras pelos seus personagens. O boato não é racional, pois a verossimilhança da notícia somente é garantida pela figura do expert... Os boatos funcionam como sendo lugares da memória dando ressignificados por imagens fantásticas, marcadas pela incongruência e inadequação que geram na recepção, ao serem composta pelo cronista. Ao se criar imagens capazes de permanecer mais tempo na memória estamos a estabelecer semelhanças das mais impressionantes possíveis. De fato, o grotesco se manifesta na seriedade cética de Machado que está presente nas metáforas e ironias que tanto apontam para o caráter contingente dos valores e em falas e ditos dos tipos literários consagrados pelas narrativas. O efeito cômico de Machado de Assis pressupõe a ironia que possui uma memória seletiva e, tem sua autoridade dissolvida pela racionalidade de um conhecimento supostamente produzido pela recuperação de imagens do passado e, busca compatibilizar o que nem é possível ser compatível com a realidade. Enfim, volta-se para o extraordinário da fantasia que comemora o casamento da memória com a história. A inadequação de usar casacas alugadas para um baile constitui o alvo da matéria que chamou atenção do cronista. Ademais o uso da casaca não se adapta bem ao clima da cidade, quente e tropical. O significado do vestuário em certos circuitos sociais da sociedade oitocentista nos faz seguir cegamente padrões europeus. Machado mimetizou os circuitos materiais e simbólicos dos bailes e ainda apontou os aspectos políticos, morais e culturais desses espaços. Machado mimetizou no romance esses circuitos sociais. No romance "Esaú e Jacob", a personagem D. Cláudia, mãe de Flora, “pensava no baile da ilha Fiscal, sem a menor ideia de dançar, nem a razão estética da outra. Para ela, o baile da ilha era um fato político, era o baile do ministério, uma festa liberal, que podia abrir ao marido as portas de alguma presidência. Via-se já com a família imperial". Ouvia a princesa: -Como vai, D. Cláudia? - Perfeitamente bem, Sereníssima senhora. E Batista conversaria com o imperador, a um canto, diante dos olhos invejosos que tentariam ouvir o diálogo, à força de os fitarem de longe. O marido é que... Não sei que diga do marido relativamente ao baile da ilha. Contava lá ir, mas não se acharia a gosto; pode ser que traduzissem esse ato por meia conversão. Não é que só fossem liberais ao baile, também iriam conservadores, e aqui cabia bem o aforismo de D. Cláudia que não é preciso ter as mesmas ideias para dançar a mesma quadrilha. (…) A esquisitona (Flora) foi ao baile da ilha Fiscal com a mãe e o pai. Assim também Natividade, o marido e Pedro, assim Aires, assim as demais gente convidada para a grande festa. Foi uma bela ideia do governo, leitor. Dentro e fora, do mar e da terra, era como um sonho veneziano; toda aquela sociedade viveu algumas horas suntuosas, novas para uns, saudosas para outros, e de futuro para todos, - ou, quando menos, para a nossa amiga Natividade – e para o conservador Batista. Aquela considerava o destino dos filhos, - coisas futuras! Pedro bem podia inaugurar, como ministro, o século XX e o terceiro reinado. Natividade imaginava outro e maior baile naquela ilha. Compunha a ornamentação, via as pessoas e as danças, toda uma festa magna que entraria na história. A metáfora do baile funciona como artifício que desestabiliza os valores de verdade pressupostos pela memória dos leitores que recuperam os lugares das enunciações morais, discursivas, filosóficas e religiosas subtraídas pela memória do autor na construção de sua narrativa, uma vez que, enquanto artifício, a metáfora do baile direciona o sentido para o domínio do alegórico, da imaginação e do fantástico. Seguindo a lógica das figurações sociais de uma sociedade que pretendia reproduzir os signos de prestígio de uma sociedade de corte europeia, podemos dizer, nessa perspectiva do medalhão, que o seu comportamento está vinculado às conveniências de uma sociedade fundada na hierarquia de privilégios, posto que “um dos princípios dessa mundo, mimetizado nesse conto, é o de que o ser social do indivíduo é totalmente identificado com a representação que lhe é dada por ele próprio ou pelos outros. A realidade de uma posição social é apenas o que a opinião julga que ela é: era o reconhecimento pelos outros da qualidade de membro essa sociedade que, em última análise, determinava essa própria qualidade”. Nessa concepção de ironia o artifício é suplantado pela subjetividade, a materialidade do discurso pela sua significação metafísica, pois “a subjetividade tem que ser desenvolvida, ou melhor, na medida que a subjetividade se faz valer aparece a ironia,,, como uma revelação cáustica e real.
GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 08/05/2026
Alterado em 08/05/2026 Copyright © 2026. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
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