"O conhecimento é o mais potente dos afetos: somente ele é capaz de induzir o ser humano a modificar sua realidade." Friedrich Nietzsche (1844?1900).
 

Professora Gisele Leite

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Freud contemporâneo

Freud contemporâneo

 

Sigmund Freud está no topo dos debates nos dias atuais. Há muitas contas no Instagram dedicadas à teoria freudiana e acumulam muitos seguidores. Há também programas de TV tais como Terapia de Casal que disseminaram seus estudos.

 

Sem contar os muitos artigos e publicações presentes no The New York Times e no The Guardian que apontam para verdadeiro renascimento da psicanálise.

 

Espantoso é esse retorno pois nos derradeiros cinquenta anos, a psicanalise criada por Freud na cidade de Viena nos idos de 1900 fora rejeitada e até menosprezada por muitos círculos científicos. Principalmente no mundo anglófono e o avanço da psicologia comportamental e a expansão da indústria farmacêutica empurraram terapias calcadas na fala, tal como a psicanálise para o escanteio.

 

Durante a vida de Freud foram criados quinze institutos psicanalíticos em todo mundo, e, assim, de Paris a Buenos Aires, de São Paulo a Tel Aviv, a psicanálise conheceu pleno florescimento ao longo do século XX.

 

Percebe-se que em toda América do Sul Freud continua a exercer massiva influência clínica e cultural, e o motivo de tamanha popularidade está relacionada à história da diáspora judaica no século XX.

 

Mas há outro fator, talvez menos evidente: a ascensão do autoritarismo. A psicanálise pode ter surgido e se difundido no contexto da Europa em guerra, mas sua popularidade cresceu em paralelo a crises políticas.

 

Enfim, a psicanálise com seu interesse por trauma , repressão, luto e verdade inconsciente — tornou-se uma forma significativa de lidar com a opressão.

 

Espaços de escuta e fala sobre trauma e perda passaram a funcionar como uma estratégia de resposta e, talvez até de resistência a esse desastre político. Em uma cultura de mentiras de Estado e silêncio imposto, simplesmente dizer a verdade era um ato radical.

 

Muitos dos primeiros seguidores de Freud usaram a psicanálise de maneira semelhante. Diante dos horrores inexplicáveis do fascismo europeu, pensadores como Wilhelm Reich, Otto Fenichel, Theodor Adorno e Erich Fromm viam a psicanálise, frequentemente associada ao marxismo clássico, como uma ferramenta para compreender como se formam e se desejam personalidades autoritárias.

 

À medida que novas formas de autoritarismo multinacional emergem, imigrantes são demonizados e genocídios são transmitidos ao vivo, a psicanálise volta a ganhar força.

 

Mark Solms forneceu os elementos necessários para retomar a psicanálise. Em seu novo livro, “The Only Cure: Freud and the Neuroscience of Mental Healing” (A Única Cura: Freud e a Neurociência da Cura Mental, em tradução livre), Solms usa a neurociência, especialmente, seu trabalho sobre os sonhos para argumentar que a teoria freudiana do inconsciente estava correta desde o início.

 

De acordo com Solms, embora possam ser eficazes no curto prazo, medicamentos oferecem apenas soluções temporárias. Somente os tratamentos psicanalíticos, afirma ele, proporcionariam efeitos duradouros.

 

Solms faz parte de um grupo crescente de clínicos e intelectuais cujo trabalho recolocou a psicanálise em evidência cultural. Enquanto Solms se aproxima da neurologia, outros, como Jamieson Webster, Patricia Gherovici, Avgi Saketopoulou e Lara Sheehi, recolocam a dimensão política da psicanálise no centro do debate.

 

O trabalho deles mostra como conceitos da psicanálise sobre o inconsciente, a "pulsão de morte" , a bissexualidade universal, o narcisismo, o ego e a repressão que ajudam a interpretar o momento contemporâneo, principalmente, quando outras teorias se mostram insuficientes.

 

As razões para o ressurgimento da psicanálise refletem aquelas que impulsionaram suas ondas anteriores de popularidade: em momentos de instabilidade política, violência de Estado e traumas coletivos, ela oferece ferramentas para dar sentido ao que parece não ter sentido.

 

A psicanálise fornece um quadro para compreender como impulsos autoritários se enraízam nas subjetividades individuais e se disseminam pelas sociedades.

 

Era uma era dominada por soluções rápidas e intervenções farmacológicas na saúde mental, a psicanálise insiste no valor de uma atenção prolongada à complexidade humana.

 

Ela se recusa a reduzir o sofrimento psíquico a desequilíbrios químicos no cérebro ou a sintomas a serem apenas controlados. Em vez disso, trata o mundo interno de cada indivíduo como algo digno de exploração profunda.

 

Freud continua extremamente contemporâneo porque seu pensamento tocou em pontos fundamentais da condição humana que permanecem inalterados, mesmo com o avanço tecnológico e social.

 

A sua capacidade de analisar o sofrimento psíquico, o mal-estar na cultura e os mecanismos de defesa do ego faz com que ele não seja apenas um pensador do século XX, mas um autor cujas teorias sobre o inconsciente e a sexualidade continuam a explicar o comportamento humano hoje.

 

Os motivos pelos quais Freud permanece atual:

 

O “Mal-Estar” permanente, pois, a análise de Freud sobre o conflito entre o desejo individual e as exigências da sociedade (a cultura) é cada vez mais atual, especialmente em épocas de crise e incerteza, quando a sensação de angústia e insatisfação se intensifica.

 

Investigação do Inconsciente: Em uma era de respostas rápidas e medicamentos, a psicanálise mantém o foco no inconsciente, propondo que o sofrimento tem raiz em questões profundas e não apenas em desequilíbrios químicos, resistindo à redução do ser humano a dados biológicos

 

A "Peste" no Mundo Moderno. Freud percebeu que as pessoas tentam evitar a dor e a frustração através da busca por felicidade material, uma ilusão que ele considerava inócua e, que hoje se reflete no consumo excessivo e na busca por uma vida "perfeita" nas redes sociais.

 

Atualização do pensamento freudiano demonstra que longe de ser um corpo teórico dogmático, a psicanálise freudiana se renova ao dialogar com questões contemporâneas, como a sexualidade fluida, novas formas de família e os desafios trazidos pelas novas tecnologias.

 

Em um mundo de "soluções rápidas" e medicalização excessiva da mente (soluções farmacológicas), a psicanálise valoriza a escuta profunda e a singularidade de cada história, tratando o sofrimento não como um defeito químico, mas como um sentido a ser decifrado.

 

Freud revolucionou ao separar a sexualidade da reprodução e ao colocar o desejo no centro do comportamento humano. A psicanálise atual dialoga com questões de gênero, diversidade e novas formas de afeto, revisitando os conceitos de "pulsão" e "libido".

 

Freud foi declarado "morto" ou obsoleto muitas vezes, mas suas ideias renascem constantemente (como uma Phênix), pois fornecem ferramentas eficazes para entender a resistência humana à mudança e a complexidade psíquica.

 

Raízes na cultura pois Freud identificou que a sexualidade e a agressividade são motores importantes da conduta humana. Seus conceitos sobre transferência, repressão e os mecanismos de defesa continuam a ser essenciais para entender as relações afetivas e as neuroses modernas

 

Esperemos que tal renascimento da psicanálise de Freud prospere pois o diálogo necessário com os diversos movimentos de justiça social e solidariedade. Entender a psiquê humana é essencial para humanizar as convivências e a sobrevivência no tempo contemporâneo.

 

 

GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 12/05/2026
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