"O conhecimento é o mais potente dos afetos: somente ele é capaz de induzir o ser humano a modificar sua realidade." Friedrich Nietzsche (1844?1900).
 

Professora Gisele Leite

Diálogos jurídicos & poéticos

Textos


O Dia do Poeta

 

 

Comemora-se o dia do poeta em 20 de outubro no Brasil. E, o principal propósito da comemoração é incentivar a leitura, a escrita e a publicação de obras literárias e poéticas.

O dia fora escolhido em razão de 20 de outubro de 1976, quando em São Paulo surgiu o Movimento Poético Nacional, comemorado na casa do romancista, advogado e pintor Paulo Menotti Del Picchia.

Nosso país é farto de grandes poetas que tanto nos ajudam a celebrar não só a data, mas principalmente a cultura e literatura brasileira.

Destaco sete poemas inesquecíveis para reverenciar a data.  

No meio do Caminho de autoria de Carlos Drummond de Andrade e publicado na Revista de Antropofagia em 1928. O poema cogita sobre os obstáculos que encontramos durante nossas vidas e de como escolhemos lidar com tais óbices.

E, o que não faltam no nosso país são grandes poetas para nos ajudarem a celebrar a data no maior estilo. Hoje, trouxemos uma lista com oito poemas icônicos da nossa história.

E não deixe de conferir uma matéria especial que já publicamos, celebrando doze canções da MPB que foram inspiradas em obras da literatura nacional.

 

1 –  No Meio do Caminho – Carlos Drummond de Andrade (1928)

Poema de Carlos Drummond de Andrade – publicado na “Revista de Antropofagia”, em 1928 – fala sobre os obstáculos que encontramos durante as nossas vidas e de como escolhemos lidar com esses obstáculos.

“No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra.”

 

2 – Vou-me embora pra Pasárgada – Manuel Bandeira (1930)

O poema de Manuel Bandeira – publicado no livro “Libertinagem“, em 1930 – fala sobre a nossa vontade de escapar para um lugar distante e idealizado, buscando descanso ou liberdades, quando a realidade presente nos sufoca.

A cidade Pasárgada realmente existiu e foi a capital do Primeiro Império Persa.

“Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

 

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconsequente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

 

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe – d’água.

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

 

Vou-me embora pra Pasárgada

 

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

 

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

– Lá sou amigo do rei –

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.”

Em 1987, a cantora e compositora carioca Olívia Hime idealizou e lançou o álbum “Estrela da Vida Inteira”, para  celebrar o centenário de nascimento de Manuel Bandeira. “Vou me Embora Pra Pasárgada” foi musicada por Gilberto Gil.

 

3. Ou Isto ou Aquilo de autoria de Cecília Meireles (1964) esse poema deu nome ao livro que reuniu cinquenta e sete poemas da escritora

Cecília Meireles, foi lançado em 1964, a obra é um clássico, principalmente do universo infantil que atravessa gerações.

Representa uma espécie de divisor de águas entre dois períodos de produção poética para crianças e também uma linguagem bem próxima delas, inaugurando uma fase que privilegia o olhar e os sentimentos da criança.

No poema encontramos a dúvida, a incerteza e a indecisão peculiar dos infantes. E, nos ensina sobre a escolha, o que significa sempre perder, ter algo significa necessariamente renunciar outra coisa.

Ou se tem chuva e não se tem sol,

ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,

ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,

quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa

estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

O quinto poema é o Soneto de Fidelidade de autoria de Vinícius de Moraes, foi publicado no livro intitulado Poemas, Sonetos e Baladas de 1946.

Representa uma das mais sensatas declarações de amor humano . Promete-se o amor pleno enquanto o afeto durar, o que nos faz entender a grandeza do amor não está ligado ao fato de ser eterno.

De tudo, ao meu amor serei atento

Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto

Que mesmo em face do maior encanto

Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento

E em louvor hei de espalhar meu canto

E rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure

Quem sabe a morte, angústia de quem vive

Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.”

Os versos do soneto também ficaram muito conhecidos porque passaram a ser declamados junto com a música “Eu Sei Que Vou te Amar”, composta por Vinicius de Moraes – que tem também uma importância ímpar para a música popular brasileira – em parceria com Tom Jobim.

 

4 – Com Licença Poética – Adélia Prado (1976)

Poema mais famoso da escritora mineira Adélia Prado, “Com Licença Poética” foi incluído no seu livro de estreia, “Bagagem“, de 1976.

O poema faz – ao mesmo tempo – uma breve apresentação da autora e sobre a condição da mulher na sociedade brasileira. Sendo uma das poucas escritoras mulheres a ganharem espaço entre tantos homens que dominavam os holofotes poéticos, já apenas isso já retrata a sociedade patriarcal em que vivíamos e ainda vivemos.

“Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado pra mulher,

esta espécie ainda envergonhada.

 

5 – Morte e Vida Severina – João Cabral de Melo Neto (1955)

Uma das obras-primas da literatura brasileira, a obra “Morte e vida Severina” é a mais famosa do escritor pernambucano João Cabral de Melo Neto.

Ao longo de muitos versos, o poeta nos narra a história do retirante Severino, um brasileiro como tantos outros que foge da fome em busca de um lugar melhor.

Severino é um símbolo dos migrantes nordestinos que precisaram sair do seu lugar de origem, o sertão, para procurarem uma oportunidade de trabalho na capital, no litoral.

O poema, trágico, é conhecido pela sua forte carga social, um clássico regionalista e modernista brasileiro, e trata do drama da seca.

 

Aqui está um breve trecho:

“— O meu nome é Severino,

como não tenho outro de pia.

Como há muitos Severinos,

que é santo de romaria,

deram então de me chamar

Severino de Maria

como há muitos Severinos

com mães chamadas Maria,

fiquei sendo o da Maria

do finado Zacarias.

Mas isso ainda diz pouco:

há muitos na freguesia,

por causa de um coronel

que se chamou Zacarias

e que foi o mais antigo

senhor desta sesmaria.”

 

6 . O Tempo – Mario Quintana (1980)

Conhecido popularmente como “O Tempo”, o poema de Mario Quintana tem como título original “Seiscentos e Sessenta e Seis”. Foi publicado pela primeira vez na obra “Esconderijos do Tempo”, em 1980.

O livro, escrito quando o autor estava com 64 anos, exprime a sua visão madura e sábia sobre a vida. Reflete sobre temas como a passagem do tempo, a memória, a existência, a velhice e a morte.

Como não podemos voltar no tempo e refazer a nossa história, o poeta sugere a necessidade de se aproveitar a vida em seu momento presente.

Mario Quintana está entre os poetas mais populares da literatura brasileira e seu sucesso se deve justamente à simplicidade dos seus versos e capacidade de identificação com o leitor.

“A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…

Quando se vê, já é 6ª-feira…

Quando se vê, passaram 60 anos!

Agora, é tarde demais para ser reprovado…

E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,

eu nem olhava o relógio

seguia sempre em frente…

 

7 – Poemas aos Homens do Nosso Tempo –  Hilda Hilst (1974)

“Poemas aos Homens do Nosso Tempo” foi publicado em “Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão”, de 1974, o livro mais estudado da escritora paulista Hilda Hilst e aclamado pelo público e crítica.

Corajosamente publicado em meio a ditadura militar, o poema mostra a clara oposição colocada entre o ofício do poeta e o dos outros homens.

Hilda distingue poetas das outras criaturas, por vezes fazendo crer que a vida do poeta é mais dura.  No entanto, ao final do poema, vemos que a conclusão é justamente a oposta: enquanto a poesia transcende a morte, todos os outros são digeridos pelo tempo.

“Enquanto faço o verso, tu decerto vives.

Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.

Dirás que sangue é o não teres teu ouro

E o poeta te diz: compra o teu tempo.

Contempla o teu viver que corre, escuta

O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.

Enquanto faço o verso, tu que não me lês

Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.

O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:

 

8 .O último poema é de autoria de Ferreira Gullar. Traduzir-se.

Ferreira Gullar (1930-2016) foi um dos mais importantes poetas brasileiros, crítico de arte e ensaísta, que fundou o movimento Neoconcreto e participou do Concretismo, com obras que mesclam poesia experimental, engajamento político e reflexões sobre a condição humana. Nasceu em São Luís do Maranhão, foi exilado pela ditadura militar, retornou ao Brasil e em 2014 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, recebendo o Prêmio Camões em 2010.

Traduzir-se

 

Uma parte de mim

é todo mundo;

outra parte é ninguém:

fundo sem fundo.

 

Uma parte de mim

é multidão:

outra parte estranheza

e solidão.

 

Uma parte de mim

pesa, pondera;

outra parte

delira.

 

Uma parte de mim

almoça e janta;

outra parte

se espanta.

 

Uma parte de mim

é permanente;

outra parte

se sabe de repente.

 

Uma parte de mim

é só vertigem;

outra parte,

linguagem.

 

Traduzir-se uma parte

na outra parte

— que é uma questão

de vida ou morte —

será arte?

GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 23/06/2026
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