![]() |
|
![]()
chuva no deserto
Duas horas da manhã
Reina um silêncio pétreo lá fora só corrompido pelo discreto barulho da água caindo É uma chuva insistente Que teima em molhar, Teima lavar incessantemente tudo lá fora. E, nos pequenos estalidos da água gotejando Fico a querer decifrar notas musicais, sustenidos e bemóis imaginários. Na pauta musical invisível da natureza, resta-me apenas ler em silêncio durante minha insônia É na insônia que dimensionamos a tristeza e a infelicidade E, por ter encontrado você minha amada poesia, percorre-me as vezes uma secreta redenção, uma secreta satisfação. Aquela mesma dos monges no alto dos monastérios A procurar decifrar línguas mortas, mistérios escavados em pedra, barro ou em seres humanos E que iluminam uma vida inteira com a lamparina delicada do saber e da esperança. Duas horas da manhã, e você novamente me sorri e me acena Com sua magia e vigor. Não consigo nessa insônia ver afinal de contas a saída, de onde vou retirar maiores forças, E, sobreviver a mais um dia de amanhã. Escorreram as lágrimas da chuva em vão Porque o manancial de mágoas é infindo As lástimas arranham as paredes da sala, arrastam-se por toda a casa, E na devassidão doméstica há um silêncio, um soluço e decepções decorando bizarramente o ambiente. Há um homicídio emocional praticado todos os dias. Duas horas da manhã O relógio timidamente me espreita as horas, há horas... E, numa vergonha absurda, passo a escrever, A sorver o significado de tudo, E exprimi-lo na forma de poesia, ou de prosa. Escrevo cartas que jamais enviarei Risco versos mundanos a profanar templos, a atear fogos as vestes, a desnudar sensações e libidos mortos em corpo ainda vivo. E, na doçura misteriosa das palavras Entrego meus momentos, Esqueço da dor, da fria chuva lá fora que molha o jardim intrigante da babilônia, dos labirintos solitários sem minotauros. A chuva vai trazer versos molhados E úmidos que contaminarão minha alma do deserto. Bendita chuva. Bendita insônia.
GiseleLeite
Enviado por GiseleLeite em 03/05/2008
Copyright © 2008. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
|


