"O conhecimento é o mais potente dos afetos: somente ele é capaz de induzir o ser humano a modificar sua realidade." Friedrich Nietzsche (1844?1900).
professora Gisele Leite
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A modernidade, mito e ilusão

A modernidade é relacionado com o novo, àquilo que rompe com a tradição e em geral corresponde a um sentido positivo de mudança. Todavia a modernidade tem perigosos envolvimentos com o mito e a ilusão.A autora traça toda uma trajetória histórica- pol´tica do pensamento moderno.
Gisele Leite

Os grandes pensadores do século XVIII jamais se autodeterminaram modernos embora defendessem os ideais modernos. A periodização histórica que hoje estudamos em filosofia foi derivada do pensamento de G.W.F. Hegel(1770-1831) aliás, tal fato foi a questão central para a própria filosofia, e não é mera historiografia.

A grande dificuldade de se entender a modernidade resida na proximidade dele tanto do antigo e medieval pensamento, e ainda sermos herdeiros desta tradição.

A utilização do termo “moderno” já era usado na filosofia medieval designando nova lógica que começou a partir do século XII e que se opunha à tradição antiga chamada de lógica vetus.

A lógica modernorum ou terminista passa ter uma ótica inovadora. Mais tarde, no século XIV, Ockham e seus adeptos passaram a ser conhecidos como defensores da vida moderna na lógica e na metafísica. O próprio cristianismo serviu de divisor de águas entre antiqui e moderni.

A noção de moderno agitou os meios liberais franceses do século XVII, com a defesa do classicismo greco-romano e a defesa pro Perrault e Fontenelle do modernismo.

Associavam ao moderno, a idéia de progresso nas artes e nas letras tanto quanto nas ciências. Pregava a superioridade do novo e a rejeição da tradição.A própria etimologia da palavra moderno nos revela que esta é advérbio latino advindo de “modo” que significa, agora mesmo, neste instante, no momento, designando a contemporaneidade, opondo-se ao que é anterior, tradicional e clássico.

A identidade do moderno começa com ruptura da tradição, a idéia de progresso, o novo é o melhor e mais avançado que o antigo, a valorização do indivíduo, da subjetividade em oposição ao divino, e ao sacro, ao dogma e às instituições, à autoridade externa.

A origem do moderno começa com o surgimento e desenvolvimento do humanismo renascentista do século XV, e também, com a reforma protestante do século XVI e a revolução científica do século XVII.

A modernidade também sofreu influência da descoberta do Novo Mundo(1492), o desenvolvimento do mercantilismo em detrimento da economia feudal, o surgimento e o fortalecimento dos Estados nacionais em substituição ao papel fragmentário feudal.

A modernidade, é, enfim um período de transição. E analisada por alguns ideólogos como um período de refinamento até pelo aspecto produtivo econômico pois saímos do agrário para o comercial.

Giorgi Vassari foi empregar o termo renascimento para significar a releitura do estilo clássico como na pintura do Giotto(século IV), rompendo com a arte gótica que foi característica final da era medieval.

O traço mais característico do Renascimento é o humanismo aliás que foi buscar no lema sofista de Protágoras sua maior inspiração: “O homem é a medida de todas as coisas” o que marca uma ruptura com a hierarquia medieval, com a predominância do sagrado, com sua filosofia a serviço da teologia e da problemática religiosa.

Durante o humanismo renascentista preferiu-se Platão à Aristóteles, se bem que Platão se apresentou de forma poética, romântica, como estilista da língua grega e dialético.

Freqüentemente nos momentos de inovação e ruptura, há uma forte dose de sincretismo e ecletismo. Aliás, Platão não foi o mesmo humanista que Protágoras; diferentemente da ótica aristotélica sempre enxergando uma filosofia teológica enfocando da escolástica, as provas da existência de Deus, à lógica a serviço dos dogmas entra em franca decadência.

O humanismo vem-se antagonizar com o teocentrismo, valorizando o homem e seus interesses. Por outro lado, também se rompe com a importância dada às ciências naturais após a redescoberta de Aristóteles ao final do século XII.

O tema da dignitas hominus(dignidade do homem) adquire um inovador sentido, contrapondo-se ao tema medieval da miseria hominus(a miséria do homem) corresponde ao ser decadente descendente de Adão profundamente marcado pelo pecado original.

Giannozzo Manetti foi um dos primeiros autores de tratados sobre “ A dignidade e excelência do homem” e, o Giovanni Picco della Mirandola, autor da Oração sobre a dignidade do homem em 1486, certamente influenciado por Nicolau de Cusa que escreveu “De conjecturis”(1443) que bem retrata humanismo nascente.”O homem é um Deus não em sentido absoluto, porque é homem, mas é um Deus humano”.

Tais obras de profundo teor ético, valorizam a liberdade humana , enxergam o homem como centro da Criação e lhe atribuem uma dignidade natural, inerente à sua própria natureza enquanto ser humano.

E neste sentido, sob o pseudônimo de Álvaro de Campos, Fernando Pessoa é soberbo em nos revelar o ser humano através de seu “Poema em Linha Reta”.

O homem é um microcosmo que reproduz em si a harmonia do universo. O movimento renascentista artístico e cultural surgido no século XV sediou-se em Floresça, então uma das mais ricas cidades da Europa, uma república administrada por notáveis, pelas ligas e corporações, eles empreenderam o movimento de reconstrução da cidade e de busca de uma nova identidade.
Um desses chanceleres do século XV é Leonardo Bruni que em 1428 compara Florença com Roma e Atenas, é grande defensor dos studia humanitatis , do estudo das humanidades ao invés das questões teológicas e filosóficas da escolástica.

A arte renascentista labora a priori um projeto arquitetônico visando reconstruir a cidade onde se destacam os arquitetos Felipe Brunelleschi e Leon Battista Alberti.É uma arte voltada para o homem, o homem comum da Renascença, ao artesão, o artífice, cidadão, e não o senhor feudal, medieval e suserano, ou mesmo, o alto dignitário da Igreja ou mensageiro dos céus...

As cenas domésticas e cotidianas do comércio burguês são retratadas. Não temos apenas tantas estátuas de santos, monumentos ao divino ou figuras de reis e príncipes. As retratações dos santos passam pelas proporções humanas, como o Davi, o São Marcos e São Jorge do grande escultor Donatello.Há uma leitura humanizante dos seres divinos.

O retrato mais célebre (e que pleonasticamente bem fotografa a época) é a Mona Lisa(La Gioconda) onde Leonardo Da Vinci representa apenas a esposa do comerciante Giocondo que o encomendou ao artista.

Francesco Petrarca é identificado como o primeiro humanista que expressou a Idade Média como a “idade das trevas”. Poeta que foi um dos primeiros a escrever em italiano e a defender a retomada dos clássicos sobretudo de Cícero, e a valorizar a oratória, a retórica, a moral e a política. Passou a rejeitar a metafísica e a teologia medieval.

Petrarca também autor de tratados em latim, é essencialmente um homem da transição florentina,e foi amigo de papas e cardeais.

Dante Alighieri que escreveu sua Divina Comédia, inaugurando assim um novo estilo onde critica a política de sua cidade, inspirado em Virgílio(poeta romano) ainda conserva assim,. uma certa temática religiosa e a visão herdada do período medievo.

Neste cenário, temos a reencarnação de Platão através de Gemisto, a recriação da Academia Platônica, o surgimento do notável Lorenzo de Médici, então reedita-se para o latim as obras de Diógenes Laércio que retoma a discussão filosófica sobre os estóicos, epicuristas e céticos.

A Teologia platônica de Marsílio Ficino dá um tratamento diferente as questões religiosas. A lógica aristotélica que se reveste de sutileza e sofisticação, os argumentos escolásticos e a defesa dos dogmas cedem lugar a interesse maior pela retórica, pela gramática e pela dialética.

Lorenzo Valla é um dos mais influentes humanistas, foi um filólogo que discutiu a interpretação de textos clássicos, um especialista em retórica e oratória, adversário da lógica aristotélica, e, defensor de uma moral inspirada no epicurismo contra o que considerava visão superficial do estoicismo, adotada por muitos nesta época.

A redescoberta dos clássicos pelo humanismo renascentista e o desenvolvimento a interpretação independente da escolástica é bem evidente no célebre afresco de Rafael, a Escola de Atenas pintado em 1510 no Vaticano para o papa Júlio II.

Tal afresco retrata os importantes filósofos gregos da Antigüidade tendo ao centro as figuras de Platão que aponta para o alto e segura o texto do Timeu, e de Aristóteles que aponta para o chão e, tem em suas mãos a Ética.

Os filósofos e sábios se dividem em dois grupos que representam, por um lado, a tendência à abstração e à espiritualidade, Pitágoras e Parmênides, por exemplo, estão próximos de Platão, e da estátua de Apolo; e por outro lado, os que representam o interesse pelas coisas práticas e pela ciência natural, por exemplo, Euclides e Cláudio Ptolomeu, próximos a Aristóteles.

Rafael sitou-se e a seu mestre Leonardo Da Vinci ao lado de Aristóteles, talvez porque Platão desvalorizasse as artes plásticas por considera-las como meras cópias do real.O referido afresco se encontra exatamente na Stanza della Segnatura, a biblioteca do Papa e não representa nem santos e nem teólogos ou padres da Igreja ou os apóstolos e, sim os pensadores pagãos.

Grande importância política teve o humanismo onde despontaram figuras ilustre como a de Erasmo de Roterdã, Thomas Morus que se preocuparam em aplicar os princípios da virtude inspirados na moral e epicurista, prega-se a ética do equilíbrio e da moderação ao campo da política. Morus foi chanceler de Henrique VIII na Inglaterra e, de um príncipe cristão dedicado ao imperador Carlos V.

O preço da defesa, da independência e da liberdade de pensamento foi alto pois, Morus pagou com a própria vida, executado por ordem do rei.

Na sua obra “O elogia da loucura”(1511) elaborou em profunda ironia uma crítica ao racionalismo estéril da escolástica aristotélica, defendendo uma sabedoria intuitiva e natural. A própria”A utopia” de Morus usa também de franca ironia para formular o Estado ideal, contrapondo-se radicalmente ao autoritarismo dos réus e da Igreja e, favorecendo a razão e a virtude naturais.

A rejeição ao saber adquirido, a escolástica da hierarquia rígida ditada pelos costumes em favor da recuperação do que há de virtuoso, espontâneo da natureza humana e individual. O indivíduo é ponto de partida da nova ordem, o que mais tarde terá diferentes formulações por Montaigne, Rousseau, Hobbes e dos iluministas.

Originalíssimo foi Nicolò Machiavelli, ou seja, Nicolau Maquiavel, autor de um clássico da filosofia política “O Príncipe”, e o pai da Ciência Política mais tarde. Foi membro da chancelaria de Florença, onde ganhou bastante experiência política e pôde observar as práticas de seus contemporâneos.

Foi exatamente no exílio que redigiu sua principal obra” O Príncipe” dedicado a Lorenzo de Médici visando aconselhar na arte de manter e assegurar o poder político. Separa radicalmente a política da moral.

O governante deve ser implacável no objetivo de exercer o poder. Sua principal qualidade é a virtú que nada tem haver em comum com as virtudes cristãs; como a piedade e a humildade, mas ao contrário, pressupõe coragem, habilidade e persistência.

Por causa do caráter amoral de seus conselhos sua obra causou escândalo, dando assim origem ao adjetivo pejorativo e depreciativo “maquiavélico” e, chegando a ser considerada irônica por alguns.

Hoje, felizmente sua obra é reavaliada e ressaltada sua importância na análise do poder como um fato político, independente das questões morais, levando-se em conta como critério decisivo a sua eficácia.

Na segunda geração de humanistas, destaca-se Michel de Montaigne(1533-1595) foi autor de célebres Essais(Ensaios), foi um grande estilista da língua francesa, e criador do gênero literário chamado ensaio.

Bem representa o humanista, o individualista que lança um olhar crítico sobre o mundo que o cerca e, assim reflete sem preocupações com a sistemática ou com teorias prévias.

È curial também ressaltar o importante marco que significou a Reforma protestante e a pregação de Lutero nas portas da Igreja de Todos os Santos em Wittenberg onde sustenta as 95 teses contra os teólogos católicos e contra o papa Leão X em Roma 1517.

A Reforma luterana foi ápice de um processo de contestação dos rumos da Igreja Católica desde os últimos séculos da Idade Média.

A própria transferência da sede da Igreja para Avignon e a grande influência dos reis franceses sobre os papas nesse período em muito contribuiu para a perda da autoridade eclesiástica.

Outro fator foi o envolvimento dos papas nas questões políticas da época, gerou grandes conflitos, com a necessidade de manter, exércitos e de sustentar os estados da Igreja, o que fizeram com que a Igreja necessitasse de grandes recursos financeiros, procurando obtê-los através da venda de indulgências e de outros favores a quem se dispusesse a pagá-los.

Aliás, a idéia de reforma sempre foi bastante comum no desenvolvimento do cristianismo aliás, este mesmo surgiu como uma espécie de movimento de reforma do judaísmo, procurando torna-lo mais autêntico e fiel à visão dos profetas e menos submisso a Roma.

Mesmo durante a Idade Média, foram freqüentes os movimentos reformistas dentro das ordens religiosas. Era comum que um grupo de monges ou cléricos de determinada ordem, fundar um mosteiro uma regra interpretada de forma mais ortodoxa ou restrita, isto é, em uma acepção reformada em alguns aspectos.

Os conflitos gerados durante o período de Avignon e no seu retorno à Roma, a Igreja Católica ao final do século XIV adveio então o período chamado de Grande Cisma, mostraram a imperiosa necessidade de uma reforma da própria Igreja e, para isto foi convocado o Concílio de Constança(1414-1418) que não foi bem-sucedido em realizar a reforma.

Vários pregadores em diferentes países da Europa, inclusive na Alemanha, defendendo a volta a um cristianismo mais simples e espiritual. Pregava-se a necessidade da pobreza do clero, criticava-se a hierarquia eclesiástica, traduzindo o Velho e Novo Testamento, John Wycliffe na Inglaterra tornou os textos sagrados acessíveis a todos aos fiéis e, mesmo condenado teve muitos seguidores.

Na Boêmia destacou-se Jan Huss(1373-1415) que foi condenado à fogueira e, por sua vez teve influência sobre Lutero. Este nascido na Alemanha, estudou direito e entrou para a ordem dos agostinianos, formando-se em teologia em Wittenberg.

Certa vez, Lutero em 1510 ficou bastante chocado com a corrupção da sede da Igreja. E, a partir daí, começou a defender a reforma, e vai aos poucos radicalizando.

Condenado por Roma, é protegido por imperador Frederico da Alemanha. Produz uma tradução da Bíblia em 1522 para o alemão concluída em 1534. Em seu tratado chamado “De servo arbítrio”(1525) nega a liberdade individual, fazendo com que alguns humanistas( entre eles Erasmo de Roterdã) se afastem dele.

O protestantismo difunde-se por toda a Europa, e surgem ícones como Ulrich Zwingli na Suíça, mais tarde, Calvino em Genebra. Levantes camponeses protestantes são reprimidos violentamente . Carlos V combate veemente o protestantismo e condena Lutero através Dieta de Worms, porém muitos nobres alemães aderem à Reforma, inclusive por motivos políticos, como tentativa de preservar sua autonomia e evitar a influência política da Igreja.

A Reforma é um dos fatores propulsores da modernidade, embora para alguns intérprete de seu pensamento, sob muitos aspectos Lutero se aproxime mais da teologia medieval agostiniana.

A defesa da idéia que a fé suficiente para que o indivíduo compreenda a mensagem divina nos textos sagrados, a assim chamada “regra da fé” – não necessitando da intermediação da Igreja, dos teólogos, das doutrinas dos concílios, representa na verdade, a defesa do individualismo contra a autoridade externa contra o saber adquirido, contra portanto, as instituições tradicionais, todos colocados sob suspeita.

Lutero combate a escolástica e principalmente a visão aristotélico-tomista, as provas da existência de Deus, o racionalismo. Sua concepção teológica baseia-se em uma interpretação da doutrina de Santo Agostinho sobre a luz natural, que todo indivíduo tem em si e que lhe permite entender a aceitar a revelação inspira-se também em São Paulo(“o justo viverá pela fé”) Romanos 1,17.



Reafirma seu novo critério e se recusa a se retratar diante da Dieta de Worms em 1521 e, ainda se recusa a interpretação das Escrituras.

Aliás, recusa-se a se submeter a autoridade institucional da Igreja; traz a valoração da consciência individual, como dotada de autonomia e de uma autoridade que toma o lugar da Igreja e da tradição, por ser mais autêntica.

A Reforma filosoficamente representa a defesa da liberdade individual e da consciência, defendendo que o indivíduo é capaz de por sua luz natural de chegar a verdade(em questões religiosas) e, contesta a autoridade institucional e o saber tradicional, posições que se generalizarão muito além do âmbito religioso e, passarão a desenvolver o pensamento moderno. Que teve sua grande expressão com René Descartes.

Toda a discussão sobre a “regra da fé”, inaugura o problema dos critérios do conhecimento, sobre o livre-arbítrio e da salvação e, abala profundamente a moral vigente.

Para Lutero, a salvação só é possível pela graça divina, e a graça é um dom de Deus inerente ao saber adquirido ou à obediência à autoridade eclesiástica.

Lutero flagrantemente rejeita a doutrina ética de inspiração aristotélica de origem tomista que prega a virtude adquirida.

O esforço humano não desempenha nenhum papel na salvação, já que o homem não pode “comprar sua graça” , não pode barganhar com Deus, dependendo , exclusivamente da graça por definição e por natureza, um dom divino e gratuito.

Algumas cruciais contradições de Lutero devido a sua ascendência escolástica e agostinianas contrastam com o espírito crítico e de interpretação independente, bem como a defesa das liberdades civis contra a autoridade institucional defendidas pelo próprio Lutero em sua obra “ Da liberdade do homem cristão” (1520). Tais contradições afastaram Lutero dos ideais humanistas.

A Reforma luterana veio a calhar ao desejo de autonomia política( na Alemanha e Países Baixos) e liberdade de pensamento. Em Wittenberg considerada a Roma Germânica tornou-se o centro irradiador do protestantismo e, mais tarde foi sucedida por Genebra(considerada a capital do calvinismo).

Em 1527, é fundada a primeira universidade protestante em Marburg, seguindo-se outras.
Em 1566, o Sínodo da Antuérpia reconhece a Igreja calvinista como religião oficial da República Holandesa. Os calvinistas franceses chamados de huguenotes adquiriram uma notável força política levando a França à guerra civil.

Na Inglaterra, cria-se a Igreja anglicana em 1534 e, a Escócia se converte ao calvinismo em 1560. Em menos de meio século, o panorama político-religioso europeu é profundamente alterado e a discussão filosófica, doutrinária relacionadas com Reforma e modernidade possui um papel extremamente relevante no cenário pensante da época.

A Igreja Católica investe em bases doutrinárias erigindo assim uma Contra-Reforma (1545-63), reforça a autoridade papal e, dá à Igreja o perfil que está praticamente intacto até o Concílio do Vaticano(1962-65). No Concílio de Trento a obra de São Tomás de Aquino é colocada no altar ao lado da Bíblia.

A Inquisição recebe novas ordens religiosas de caráter militante como a Cia. De Jesus de Santo Inácio de Loyola(1534). No século seguinte, a Guerra dos Trinta Anos(1618-48) de que Descartes participa, opõe católicos e protestantes e, espalha-se por toda a Europa.

A ética protestante, notadamente calvinista, ao considerar os protestantes como predestinados e valorizar a liberdade individual, a livre iniciativa e a austeridade terá como terreno fértil os Países Baixos e a Inglaterra, permitindo a acumulação do capital que, reinvestido por sua vez nos grandes empreendimentos comerciais e mercantis, como a Companhia das Índias.

A revolução científica moderna tem seu marco inicial a obra de Nicolau Copérnico, sobre a revolução dos orbes celestes(1543). A expressão revolução científica só tenha sido usada pela primeira vez pelo cientista inglês Robert Boyle em sua obra Considerations Touching the Usefulness of Experimental Natural Philosophy em 1671.

Aliás, o modelo de cosmos em que o Sol é o centro do sistema, rompendo com o sistema geocêntrico formulado por Ptolomeu no século II cuja a origem era o Tratado do céu de Aristóteles.

Representando assim, um dos fatores de ruptura mais marcantes do início da modernidade indo contra a uma teoria estabelecida por vinte séculos, que retratava a própria maneira pela qual o homem antigo e medieval via a si mesmo e, ao mundo a que pertencia. Como bem dizia os Secos e Molhados: “rompi tratados, traí os ritos...”

Podemos considerar que o interesse pelas ciências naturais se inicia com a reintrodução na Europa ocidental, a partir do final do século XII, da obra de Aristóteles e de seus intérpretes árabes.

A inspiração da revolução científica foi calcada em Platão denotando uma valorização da matemática na explicação do universo, e nos pitagóricos, que já teriam antecipado o modelo heliocêntrico proposto por Copérnico(segundo ele próprio admite).

Apesar disto, foi Aristóteles é o responsável pela ênfase na pesquisa experimental e na importância da investigação da natureza.

Portanto, os modernos rejeitam o aristotelismo daí também repeliram o sistema geocêntrico e também o abuso escolástico da lógica aristotélica na demonstração de verdades universais e necessárias, em detrimento da observação e da experiência.

Já no século XIII, alguns filósofos se distanciaram da física e da astronomia de Aristóteles, principalmente quanto à sua explicação de movimento, procurando alternativas e recorrendo à matemática.

Nessa linha podemos citar Roberto Grosseteste, Roger Bacon e Nicolau de Oresme bem como a chamada escola franciscana do Merton College de Oxford(século XIV). Aliás, Grosseteste destaca-se como um pensador original, valorizando a observação da natureza e a importância da geometria.

Alguns de seus tratados como o “ De luce, De sphaera e o Hexaemeron” (Sobre a luz, sobre a esfera e sobre os seis dias da Criação) são bastante inovadores do ponto de vista cosmológico.

A cosmologia não poderia ser considerada independentemente de seus pressupostos metafísicos e o teológicos , o que muitas vezes gerava conflitos. Mesmo Ptolomeu criticava a concepção aristotélica.

São Tomás de Aquino em sua Suma Teologica defende Aristóteles contra os astrônomos da Alexandria, sustentando-se , enquanto esse cientista baseavam suas hipóteses em observações e cálculos, a teoria aristotélica era deduzida de primeiros princípios sendo, portanto, a mais verdadeira.

Rejeita assim, a verificação de uma hipótese com um argumento conclusivo para sua aceitação, argumentando que a verificação, por definição limitada e imperfeita, não pode suplantar os princípios metafísicos estabelecidos racionalmente, nem tampouco, as verdades universais e necessárias deduzidas logicamente.

É mais importante salvar a física aristotélica correspondendo um sistema, como um todo, dotado de coerência e concisão do que salvar os fenômenos.

A ciência moderna surge alterando a ordem de prioridades, dotando a observação, a experimentação e a verificação de hipóteses tornam-se critérios decisivos., suplantando o argumento metafísico.

Um longo processo de transição que promoveu significativas mudanças até que uma ruptura radical. O tratado de Copérnico sobre a revolução dos orbes celestes foi motivado por uma consulta feita pelo Papa Leão X e pelo Concílio de Latrão, visando reformar o calendário Juliano, estabelecido pelos romanos e que ainda vigorava na época.

O sistema novo adotado por Copérnico, heliocêntrico conserva ainda a idéia de cosmo fechado, tendo como limite a esfera de estrelas fixas, típica da visão antiga e ptolomaica.

Será apenas progressivamente é que a idéia de um universo infinito será incorporada à ciência moderna. Duas grandes transformações serão fundamentais à revolução científica: 1) do ponto de vista cosmologia empreendida por Galileu, a formulação do universo infinito que se inicia com Nicolau de Cusa e o Giordano Bruno; a concepção dos movimentos dos corpos celestes, principalmente na Terra, em decorrência do modelo heliocêntrico;2) do ponto de vista da idéia de ciência, a valoração da observação e de método experimental, isto é, uma ciência ativa que se opõe à ciência contemplativa dos antigos; 3) a utilização da matemática como linguagem da física, proposta por Galileu por inspiração platônica e pitagórica.

A ciência ativa moderna rompe com a separação entre a ciência(episteme), o saber teórico, e a técnica(techne), o saber aplicado, integrando ciência e técnica e fazendo com que problemas práticos da técnica levem a desenvolvimentos científicos.

A revolução científica rompe de fato decisivamente com a ciência antiga só com Newton (século XVIII) é que teremos a formulação de uma ciência físico-matemática plenamente justamente em um sistema teórico.

Chegou-se através do astrônomo dinamarquês Tycho Brahe(1546-1601) a propor um sistema intermediário, o sistema ticônico, em que a Terra permanece no centro do cosmo, o Sol gira em torno da Terra e os planetas, por sua vez, giram em torno do Sol. O que bem demonstra como de fato as mudanças foram progressivas.

Apenas Galileu (século XVII) se dá a demonstração do modelo copernicano graças ao uso do telescópio que inicialmente teve uso para fins militares e, foi aperfeiçoado pelo Galileu.

Quando Galileu é interpelado pela Igreja em Roma e, sugere que os cardeais olhassem através do telescópio. E ouviu como reposta com base nos argumentos de São Tomás, que nenhuma verificação empírica pode suplantar as antigas doutrinas, posto que a observação é limitada e imperfeita.

A infinitude do universo aberto tem origem mais metafísica do que estritamente física ou astronômica, e teve por base a obra de Nicolau Cusa sob inspiração platônica.

A idéia do immensum, sem centro e sem circunferência, é bem retratada por Giordano Bruno que aliás em 1600 é queimado na fogueira como herege. Mais tarde, em 1616 a Inquisição condena a obra de Copérnico.

Em 1609 Kepler, um discípulo de Tycho Brahe defende em sua Astronomia nova sive physica coelestis, a idéia de que o universo é regido por leis matemáticas, embora possuísse inspiração platônica-pitagórica.

O mecanismo vê a natureza como um mecanismo tal qual a engrenagem de um relógio, a funcionar impulsionado por uma força interna.

A função da ciência é, pois, descrever a natureza desses elementos e as leis capazes de explicar seu funcionamento.

Para Galileu, a matemática é linguagem mas não é a síntese da nova física que deve tratar o espaço como abstrato e o movimento como uma relação entre dois pontos no espaço o que pode ser expresso através de uma equação.

Kepler já havia descrito as órbitas dos planetas de forma elípticas, enquanto que Galileu ainda postulava a idéia de órbitas circulares.

O melhor exemplo do interesse pela técnica e pela ciência experimental se encontra em Leonardo da Vinci(1452-1519). O humanismo renascentista havia colocado o homem no centro de suas preocupações éticas, estéticas e políticas.

A Reforma Protestante valorizava o individualismo e o espírito crítico, bem como a discussão de questões éticas e religiosas.

A revolução científica é uma grande realização do espírito crítico humano. O homem deixa de ser o microcosmo que reflete em si a grandeza e a harmonia do macrocosmo, as novas teorias dissociando radicalmente a natureza do universo da natureza humana.

O pensamento moderno em sua gênese não constitui um todo orgânico, um pensamento uniforme ou homogêneo, sendo o resultado de diferentes contribuições, muitas vezes contraditórias, d pensadores em diversos campos do saber.

Há de ser cauteloso ao considerar a ciência moderna como o triunfo da racionalidade contra o obscurantismo medieval. Pois em alguns aspectos, a escolástica medieval com sua inspiração aristotélica e, seu recurso à lógica, foi mais racionalista do que a ciência moderna.

Aliás, Kepler tinha grande interesse por astrologia e fazia horóscopos; Descartes era Rosacruz, Newton se interessava por alquimia e por astrologia.

Alguns textos gregos atribuídos a Hermes Trimegistos, dotados de caráter místico que contém uma sabedoria oculta e combinam questões cosmológicas e teológicas que foram traduzidos por Marsílio Ficino(também tradutor de Platão) e serviram para a inspiração as novas cosmológicas e à ruptura com o espírito de escolástica.

O rompimento com esse pensamento místico, iniciático e ocultista, só ocorrerá com o Iluminismo do século XVIII, de caráter racionalista e secular, valorizando a experimentação e o materialismo criticando a superstição.

O ceticismo ressurgiu de maneira forte no início do pensamento moderno,sendo uma das mais importantes correntes da época. A volta aos clássicos apregoada pelo Renascimento traz novamente à baila o ceticismo, apesar da refutação de Santo Agostinho em seu diálogo contra-acadêmico.

A obra de Cícero(grande mestre da retórica e da oratória), um grande estilista da língua latina, autor de um tratado político sobre a república romana e um pensador preocupado com as questões éticas. Em seu diálogo Hortensus, hoje perdido, foi o ponto de partida do interesse filosófico de Santo Agostinho, o que o tornava aceitável aos cristãos.

Cícero era tremendamente eclético e foi também autor dos Acadêmica onde trata um diálogo sobre ceticismo. Os céticos foram talvez os primeiros filósofos a questionar a possibilidade do conhecimento e, a levantar a questão sobre os limites da natureza humana do ponto de vista cognitivo,será um dos grandes temas do pensamento moderno até Kant.

O primeiro a tratar do assunto foi Nicolau Cusa em sua obra “De docta ignorantia” (1440), os limites de nossos entendimento só podem ser superados pela fé. Já em outra obra, “De conjecturis “, sustenta que todo conhecimento é conjetural e que a certeza é impossível, atacando as demonstrações lógicas dos aristotélicos e pitagórica e neoplatônica.

A única saída está no elemento divino na natureza humana; vê assim o homem como um microcosmo que reflete em si a grandeza do macrocosmo.

Argumentos deste tipo, contra as pretensões tradicionais à cientificidade, encontramos Cornélio Agrippa de Netteshein(1486-1535), um antigo defensor do ocultismo e defende a revelação e a fé como únicas possibilidades de superar a incertezas.

Erasmo de Roterdã, em sua querela com Lutero sobre o livre-arbítrio, já havia apontado sobre a hermenêutica das sagradas Escrituras.

Contra a defesa por Lutero da interpretação fiel baseada em sua luz natural com mais autêntica do que a Igreja, Erasmo contra-argumenta que não temos porque considerar essa interpretação como melhor, já que não temos outro critério para avalia-la, o que seria possível por meio de um acesso direita à palavra de Deus.

Não há motivo portanto, segundo Erasmo, parar não aceitarmos a interpretação tradicional, já que no fundo todas se equivalem.

A oposição entre a interpretação protestante e católica suscita a problemática tipicamente cética, da ausência de um critério conclusivo para se resolver a divergência.

Michel de Montaigne é o filósofo mais importante deste período, quando à retomada do ceticismo, inclusive devido à influência de Descartes.

Enfim mergulhado em incertezas, o homem refugia-se dentro de si.

O modernismo enquanto movimento filosófico propriamente dito, começou com o empirismo inglês, sendo fruto de uma profunda crise social e cultural da Europa. E quem melhor contextualizou tal pensamento foi Descartes.

O significado da modernidade resistiu bravamente ao desabamento das torres de World Trade, ao terrorismo, ao falido capitalismo selvagem que descobriu oportunamente que não pode crescer infinitamente.

Talvez nestas redescobertas políticas e científicas(onde já podemos engenhar genericamente a humanidade) é que se tenha reafirmado cada vez mais o moderno, com o mito e a ilusão de um mundo melhor com coerência e alguma justiça social.


Gisele Leite
Enviado por Gisele Leite em 05/03/2008
Alterado em 19/08/2008
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